|
|
Terça-feira, Maio 26, 2009
Quando nossas tolas vidas conseguem chegar aos finais de semana temos a sensação de que tudo que vivemos foi em vão. O vazio nos invade a mente para atormentar. O comércio, pelo menos a grande maioria deles, fecha suas portas, consecutivamente muitos cafés, casas de chá e outras coisas mais também resolvem seguir este exemplo, ou seja, serrar suas portas. Atividade esta que causa grande desespero em nossas almas vazias. E quando isto acontece devemos ocupar nossos corpos moribundos e nossas mentes dementes com alguma coisa útil para se fazer, afazeres domésticos, por exemplo.
Pensando desta maneira pensei em algo que pudesse me mexer, exercício físico às vezes cai bem na idade que estou. Mas não muita coisa, pois também não sou nenhum Ultraman, Ultraseven ou Superman. Mesmo por que estas merdas não existem. Então, isto quer dizer que não devo me espelhar em merdas, ainda mais naquelas que não existem. De qualquer forma tinha que me empenhar numa atividade qualquer. Cortar grama seria uma boa ideia, restava saber que grama cortar, afinal de contas moro em apartamento.
Mas observando da janela da sala pude ver a existência de um pequeno jardim no prédio onde moro... Bingo! Pensei. Seria ali mesmo o alvo de minha ação. Rapidamente pus uma roupa mais adequada para estas atividades, em seguida saí pelos corredores feito uma criança tresloucada quando ganha as ruas depois de ficar horas trancada em casa para fazer a lição da escola. Chegando na portaria e com a língua de fora balbuciei ao rapaz que fica sentado o dia inteiro na cadeira, que ora dorme, ora vê a movimentação dos moradores entrando ou saindo e ora não vê nada de novo, pois este volta a dormir... Ã... Ah, sim, disse que iria cortar a grama daquele horrível jardim e ele concordou.
O próximo passo seria encontrar o lugar onde guardam os apetrechos adequados e específicos para esta ação. Uma hora se passou e ainda me encontrava perdido pelos quartos, salas e saletas que fazem parte da portaria. E quando estava quase desistindo encontrei a porra do cortador de grama, que estava embaixo da escada que leva ao porão, ou, ao outro andar do estacionamento. Tudo bem, a primeira parte do desafio fora vencido. A parte seguinte seria cortar a grama propriamente dita... Ah! Uma garrafa com água viria a calhar, pois estava ligeiramente quente naquela tarde estupidamente modorrenta.
Antes de ligar a máquina percebi que a água não seria a bebida adequada para aquele momento, teria de ser cerveja. Afinal de contas, é muito melhor trabalhar com emoção, ou com a sensação de tudo estar indo muito bem. Bom, na sombra já estava uma caixa de isopor contendo algumas latas de cerveja, então era hora de trabalhar. Assim que liguei a máquina algo inesperado aconteceu... Algo realmente inesperado aconteceu... Não era para ela dar aquela arrancada violenta e passar por cima da minha latinha. O que aconteceu com a lata? Puta que pariu! Foi cortada em quinze pedaços... No mínimo.
O negócio seria cuidar melhor das coisas antes que coisas erradas voltassem acontecer. Tudo bem, costumo ser atencioso. Contudo, lá pelas tantas, quando tudo parecia ir bem um bem-te-vi surgiu na grade que cerca o terreno do prédio e começou a cantar loucamente. Aquilo me atraiu os olhos, claro, mas aquilo não foi o problema, nem no momento que meus olhos viraram afoitos em direção da ave. O problema foi que nesta pequenina distração eu passei com a máquina nos pés do horrível anão que adorna, ou que fica no jardim. A consequência disto? Oras, o óbvio, cortei todas as unhas e todos os dedos dos pés do boneco infeliz... E de quebra foi outra latinha para as cucuias.
E as coisas não pararam por aí, lógico que não. Quando eu pensei que os desastres tinham terminado surgiram outros mais. A máquina, descontrolada, resolveu dar um trato nas coisas que estava de bobeira pelo terreno, como vasos, tapetes e o próprio cabo de alimentação de energia... Onde estava eu? Tentando livrar meu pé de plástico, mais a minha caixa de isopor e o que tinha dentro dela da destruição completa, oras. Só sei dizer uma coisa, que a situação não ficou lá muito bonita na frente do prédio. Mas ainda bem que ninguém viu as barbaridades feitas por mim. E quando quis dizer ninguém é por que ninguém viu mesmo, nem mesmo o porteiro... Ele estava dormindo ou qualquer coisa assim no momento que ia pedir a máquina... Sei lá... Tanto faz também.
Assim sendo tratei de embrulhar aquela porcaria toda de cabos partidos, vassouras cortadas ao meio e outras coisas que foram debulhadas pelo cortador de grama, num grande saco de lixo e joguei embaixo da escada do porão, ou no andar da garagem do piso inferior, como queiram. E depois fiquei sem saber o que fazer... A grama... Nem pensar. Varrer meu apartamento talvez. Mas da última vez que tentei fazer este tipo de coisa não terminou muito bem, para mim, claro. A Olga não tostou nem um pouco do meu serviço, e então terminou como tinha de terminar, com algumas vassouradas nas pernas, nas minhas, logicamente.
Mas sabe que às vezes este tipo de atitude é válida, pois ajuda ativar o sangue dos membros inferiores... Principalmente agora, nos dias de frio, pois esquenta tudo. Veja só que coisa boa. Quanto ao episódio da grama, sei lá o que aconteceu depois. Sumi. Nem quis ver no que ia dar. Afinal de contas, coisa boa é que não ia dar. E sinceramente falando, não tenho paciência para barracos. Digo isto pelo fato de que a síndica é uma verdadeira pessoa pé-no-saco, e certamente faria um escarcéu pelo ocorrido. Mas tudo bem, desculpas não faltarão para encobrir este caso, e também é isso, deixe-me então aproveitar o tédio a soprar nos meus ouvidos qualquer canção besta e deixar que o dia se acabe logo.
Mario Bourges (escriba e porta-voz) - 12:43 [+]
...
Terça-feira, Maio 05, 2009
Lembro-me da época em que eu era bem mais novo, nem havia conhecido a Olga ainda. Era na época da porralouquice, algum tempo antes de entrar para as Forças Armadas. Gostava de viajar ao litoral. Gostava de sentir a vagabundice tomar conta do meu eu, de beber sem limites, feito carro sem freio na descida. Logicamente que tais atitudes eram acompanhadas de perto por uns poucos amigos que tinha naquele tempo... Não, não era o Azambuja ou o Pereirinha ou o Beleleu. Ainda não os conhecia. Mas o Adalberto sim, na verdade era ele quem organizava e esquematizava o tipo de música que deveríamos ouvir durante as viagens ou para qualquer lugar que fossemos, pois, o toca-fitas era dele, naturalmente.
Certa vez, numa dessas idas desmedidas ao litoral, conheci a Cidinha, filha mais velha das cinco meninas da dona Cidona e do seu Cidão, que eram vizinhos de uma casa que alugamos uma vez numa praia qualquer e em uma temporada qualquer. Continuando, Cidinha parecia uma deusa, dessas que ninguém nunca viu a cara e morre de medo de ver um dia. Seu corpo escultural e sensual lembrava um vaso sanitário. Seus cabelos... Sim, ela os tinha. Gostava de usar brincos como toda jovem, contudo, os que ela usava pareciam mangueiras de jardim, e que se agarravam com dificuldade naquelas que mais pareciam palmilhas de um sapato velho do que propriamente orelhas. Todavia, o que realmente chamava a atenção era seu jeito de andar. Com graciosidade ela caminhava parecendo um vendedor de batata frita que marcha o dia inteiro pelas areias quentes da praia com seu tabuleiro repleto daquelas porcarias encharcadas de óleo rançoso, velho, nojento.
Numa dessas tardes onde a bebedeira invade a alma e toma conta do cabeção, Cidinha, que era comunicativa, aliás, era tão comunicativa que mais parecia um radialista narrando uma partida de futebol, ou ainda, um paraninfo empolgado, quase eloquente e chato contando dos pormenores que o levaram a fazer aquele discurso bisonho e enfadonho... Ã... Ah, sim, a Cidinha, pôs-se a matraquear coisas sem muito ou quase nenhum sentido para mim, mas como eu era um garotão selvagem e estúpido, bem como todo garotão, nem dei pelota para sua verborragia. Apenas me senti hipnotizado ao ver seus lábios abrindo e fechando sem parar. Aliás, lábios estes que mais pareciam duas imensas vinas tingidas de vermelho... Ã... Tudo bem... Taí um negócio que gosto, de vinas.
Bom, para encurtar um tanto, sentindo-me hipnotizado e ao mesmo tempo tonto com toda aquela falação desmedida, agarrei aquela coisinha tagarela pelas mãos suadas ou sebentas e a levei para um terreno baldio. Estava indo tudo muito bem, tudo muito fácil quando, de repente, resolvi baixar a bermuda e a calcinha da jovem; deu vontade de fazer... Sei lá o quê. Talvez fugir, por exemplo. Tal cena foi no mínimo estranha; aquelas nádegas, no primeiro momento, puseram-se a gargalhar de mim, depois gritaram pelos nomes das irmãs da miserável da Cidinha... Ô bosta! Perplexo com tudo aquilo não pensei duas vezes, caí fora daquele lugar. Se bem que, pensar era a única coisa que não fazia naquela época, mas o bom senso, o meu bom senso gritou a plenos pulmões para eu cair fora da situação em que me encontrava o quanto antes. E logicamente obedeci sem contestar.
Esperto que sou sai em disparada pelas ruas sem olhar para trás. Corri feito galinha quando esta corre na frente de algum carro antes de ser atropelada. Naturalmente não fui atropelado, mas isto só não aconteceu por um pequeno detalhe: o carro que vinha atrás de mim era do pai de um dos meus amigos... Do Carequinha... Não! O Carequinha não era o pai de um dos meus amigos... Muito menos o famoso palhaço. Era simplesmente o meu amigo. O pai dele era conhecido como o Carecoso... Este não era o pai do palhaço, mas do meu amigo; que confusão. Ah, que dirigia o automóvel era o meu amigo, o Carequinha
Logo descobri que o Carequinha também fugia, não só ele como a turma toda. Por quê? Simples, enquanto eu fugia, o alarme nadegal da Cidinha chamou atenção de todo mundo no quarteirão. O Adalberto, o Carequinha e o Alfredão (este mal chegava a ter um metro e meio de altura), que naquele momento faziam campeonato de cuspe à distância, se assustaram ao ver o velho Cidão correr de cueca, chinelos e espingarda na mão escorregar em suas nojeiras sobre a calçada e cair de costas no mar de cuspe. O velho ficou um... Virou um... Sei lá. Ficou louco, surtou, espumou de raiva. Mas também não era para menos; sair no meio de uma cagada para acudir sua filha que estava enfiada em algum lugar onde ninguém sabia, e depois ainda cair numa imensa poça de cuspe... Putz! Até eu ficaria assim.
Assim sendo o senhor Cidão, que deu lugar ao monstro Cidão, pôs todo mundo para correr com sua espingarda de sal que atirava para tudo quanto era lado. Não sobrou nem rato nos esgotos, sumiu tudo. Apenas o grito histérico da bunda da Cidinha era ouvido pelas ruas. Um tempo se passou e outro tanto de tiro e grito retumbou pelas montanhas que cercavam aquele lugar terrível. Qual seria o motivo desta vez? A rapaziada ainda tinha de voltar até a casa para pegar suas tranqueiras e o carro, logicamente. Então, aquele único minuto que permaneceram na casa bastou para se amontoarem com toda a bagagem no carro e caírem fora do imóvel onde estávamos hospedados. Quanto a mim, fui interceptado por eles enquanto corria feito um desesperado numa rua qualquer, como falei há pouco.
O resultado desta aventura foi que, muito assustados com toda esta correria, ficamos um tempo sem viajar. Para aquela praia, que não sei qual era, nem voltamos mais. Bom, talvez até tenha voltado, mas se isto aconteceu foi em outras condições e depois de muitos anos. Depois entrei fui servir a Pátria e perdi contato com alguns dos meus amigos. O único que continuou comigo foi o Adalberto que, aliás, creio até que este foi o motivo principal para deixá-lo do jeito que é hoje; estranho, fechado em seu mundinho musical. Mas, tudo bem, também gosto de ouvir músicas e de viver plenamente o meu mundinho.
ESTA POSTAGEM EU DEDICO AO MEU GRANDE AMIGO EMERSON. DESCANSE EM PAZ MEU CARO.
Mario Bourges (escriba e porta-voz) - 00:26 [+]
...
|