|
|
Segunda-feira, Março 02, 2009
Dia desses, enquanto ouvia umas músicas de Marc Ribot y Los Cubanos Postizos, peguei - me recordando de minha infância, das brincadeiras mal elaboradas que eu inventava e que sempre terminava com alguma outra criança chorando. E quando isto acontecia, ou seja, sempre, a coisa também não terminava boa para mim. As idéias dos cortes de gastos (chineladas, tapas ou chutes) sempre partiam das empresas privadas (pais das outras crianças). Contudo, toda e qualquer licitação era vencida pela empresa estatal (meus pais). A concorrência não era párea para os argumentos da estatal, que, por um acaso, era muito forte neste setor. Mas por ironia do destino, o produto (eu), em vez de ter rendimentos acabava depreciado, muitas vezes até apresentando defeitos (escoriações e cicatrizes), antes mesmo de ir ao mercado (vida própria).
Ã... Deixemos de metáforas e continuemos com a narrativa... Ã... Então, lá pelas tantas lembrei da existência de minha avó por parte de mãe. Vovó Esmeraldina era tão suave, delicada, discreta e polida quanto uma porta batendo com força em tardes de vendavais. De sua língua áspera e ardida saíam cobras, lagartos e muita saliva. Saía tanta saliva que, durante uma longa discussão, por exemplo -- aliás, não sabia conversar, só discutir, pelo fato de seu gênio ser terrivelmente intragável -- ela ficava, não raramente, totalmente desidratada.
Vez por outra, enquanto eu observava da janela da sala as bundas e os seios das jovens a desfilar pelas calçadas, ouvia a minha avó arremessando e quebrando coisas nas cabeças das criadas ou na cabeça de quem fosse. Contudo, por algum milagre talvez, eu era seu protegido. Inclusive, era a única pessoa que gostava de mim. Tanto que até me oferecia de seu queijo nojento e ligeiramente esverdeado. Pelo menos umas lambidas dele, e nada mais. Coisa esta que ela tinha o triste hábito de fazer ao longo da semana. Comê-lo, efetivamente falando, só fazia nos domingos, e ainda assim uma pequena fatia para satisfazer suas vontades quase infantis. Logicamente que isto era repugnante, mas creio que esta experiência tenha me capacitado para enfrentar algumas adversidades que a vida às vezes nos proporciona.
Quanto a mim, só de pensar neste tipo de coisa, como lamber um queijo já lambido por dezenas de vezes, ou na remota hipótese de comer uma fatia do mesmo, causava-me e ainda me causa náuseas. A estratégia para não aceitar aquela oferenda sem ofender minha protetora era dizer que queijos deixavam-me com azias, fortes e estonteantes azias. Minha avó fazia cara de desconfiança sobre minha desculpa, mas felizmente nunca procurou esclarecer isto com meus pais. Quanto a meu avô, o marido dela, já era morto quando nasci. Mas diziam que era um sujeito glutão, bonachão. Vivia procurando algo para comer... Se tinha lombrigas não sei dizer, mas sei dizer que tinha um vantajoso e espaçoso bigode. Bigode este que lembrava muito com o que o Nietsche usava. Talvez o que diferenciasse um do outro fosse a aparência rotunda de meu avô, além, é claro, das migalhas e restos sei lá de quê, que sempre ficavam pendurados no bigodão tamanho extra grande dele.
As horas foram passando e quando dei por mim todos já haviam almoçado e comido suas devidas sobremesas. As lembranças ainda insistiam em me deixar fora de órbita... É certo que para isto nem precisa de muita coisa, mas, de qualquer forma eu me encontrava ainda mais fora de meu eixo. Contudo, a fome resolveu me atacar. Meu estômago estava à beira de um colapso, de tanto que gritava. Juro que num dado momento cheguei a ouvir este órgão declamar um versinho para chamar minha atenção... Bom, talvez não tenha sido ele, mas o fato é que era preciso comer alguma coisa.
Assim sendo descolei minha bunda da cadeira que estava sentado e me dirigi até a cozinha para ver se havia sobrado algo do almoço para mim. Apenas um mísero pedaço de queijo e com cara de poucos amigos sobrou na geladeira. Imediatamente lembrei da minha avó. Certamente tal visão me deixou sem apetite. E para quem está sem apetite o melhor a se fazer é cair fora daquele ambiente, ou melhor, de casa, pois nada tinha-se para fazer lá. Logicamente que não sem antes catar uma latinha de cerveja. Sabe, a ausência deste negócio às vezes me deixa com cara e com jeitão de sei lá o quê.
Bom, então cantarolei uma música dos Kaizers Orchestra e em seguida do Ray Coniff, depois desci as escadas, pelo menos um ou dois andares apenas, pois a labirintite já me ameaçava derrubar o resto dos andares caso insistisse nesta idiotice. Após completar o percurso com o elevador (a maneira mais sensata de se locomover dentro de um prédio em se tratando de subir ou descer os andares) resolvi que deveria ganhar as ruas. E assim que sai do prédio onde moro me deparei com o carteiro pedalando sua bicicleta ergométrica e com sua bolsa abarrotada de cartas, cartões, e outras porcarias mais à tira-colo. Tudo usado para facilitar seu trabalho, e claro, para fugir de cães e seus donos, ambos incrivelmente, estupidamente, desnecessariamente e desmedidamente raivosos.
Mario Bourges (escriba e porta-voz) - 02:43 [+]
...
|